or Chico Cornejo
Foto de abertura: Pablo Bustos
O fluxo de criadores pelo globo é uma narrativa das mais clássicas e muito do que ajudou a fazer da arte uma linguagem universal que ultrapassa fronteiras e carrega significados, comunicando sentimentos e compartilhando sentidos. Sejam quais forem os motivos que impeliram pessoas a se deslocarem de seus lares e comunidades, deixando o conforto familiar e indo de encontro ao desconhecido, esse trânsito nos trouxe uma infinidade de obras, movimentos e artistas que, além de descobrirem um mundo novo, acabaram também por criá-lo. E, mesmo que as razões para a emigração tenham sido primordialmente situações de conflitos bélicos, crise humanitária e cerceamento de liberdades individuais, ela também foi feita daquele ímpeto exploratório em direção a novas oportunidades que é a base da contribuição imigrante para as maiores metrópoles do mundo.
É neste circuito nutrido por projetos e sonhos e desenhado por desejos e necessidades que os rumos de Wehbba foram estabelecidos e o levaram a atravessar o Atlântico para dar a sua carreira um fôlego que dificilmente encontraria em sua terra natal. Agora mais próximo do epicentro cultural da linguagem musical que elegeu para se expressar e que se tornou a língua franca do mundo dançante, ele se posicionou num dos lugares de maior destaque ocupado atualmente por nossos conterrâneos no cenário do Techno.
Aqui ele conversa conosco sobre sua vida e carreira, perspectivas e projetos, em um desterro voluntário que já conta alguns anos, mas que também envolve um profundo afeto pelo público de sua terra natal e, consequentemente, uma certa dose daquele que é um dos sentimentos que nós brasileiros conseguimos verbalizar melhor do que qualquer outro povo: SAUDADE. Uma que será mitigada no reencontro que ocorrerá no fim de agosto, quando ele toca na RESSONANCIA #7 ao lado de outros luminares do gênero como Magda e Yotto.
E para quem quiser matar a saudade de Wehbba e curtir a festa que acontecerá no dia 25, em São Paulo, utilize o cupom de desconto da House Mag – housemag – para comprar o seu ingresso AQUI.
HM – É difícil não lembrar da última conversa que tivemos, há uns três anos, em que falávamos sobre o que o impeliu a sair do Brasil: a carência de um espaço para sua sonoridade e de uma cultura em torno do Techno que não fosse tão dependente de modas. De lá para cá, certamente muitas coisas mudaram. Quais foram as mudanças mais significativas em sua opinião, para o melhor e para o pior?
Eu infelizmente não voltei tanto ao Brasil com a frequência que gostaria para poder ter uma opinião mais objetiva. Faz exatamente três anos que me mudei para Barcelona, e pelo o que tenho acompanhado parece que os estilos por onde eu “transito” continuam uma coisa ainda mais nicho e com um alcance limitado, apesar de bem mais aceitos atualmente, porém muita coisa no mercado mudou sim e a diversidade aumentou, e muito, tanto em relação a estilos quanto a formato de eventos em que a música eletrônica é propagada em geral. É muito bom ver isso, tomara que a gente possa continuar abrindo a diversidade e exportando também nossos talentos cada vez mais.
HM – De todos os locais que abrigam os desterrados da música eletrônica, Barcelona raramente surge como um dos destinos mais frequentes ou famosos, mas foi o que você escolheu para criar um lar e desenvolver sua carreira. O que determinou essa escolha primordialmente?
Eu me apaixonei pela cidade desde a primeira vez que a visitei, cerca de dez anos atrás. Desde então, sempre esteve nos meus planos poder viver em Barcelona, foi uma decisão muito fácil. Poucos sabem, mas a cidade é sim um reduto de artistas “expatriados”, desde Maceo Plex, Dubfire e Martin Buttrich até Shlomi Aber, Art Department, Davide Squillace e por aí vai. Além de ter inúmeros eventos e festivais de pequeno a grande porte semanalmente. É um lugar para quem curte comer bem, gosta de um clima mais ameno o ano todo, muita cultura e um ambiente mais relaxado, não tão focado na vida noturna. Para mim, oferece o balanço ideal entre viver a vida intensamente, dentro e fora da pista.
HM – Mesmo voltando para cá com certa frequência anual e não contando as relações pessoais que sempre pesam com a distância, há uma ou outra coisa que fazem com que a saudade daqui se faça sentir mais forte?
Eu sinto falta de tocar mais no Brasil, na verdade. A gente ainda tem uma energia diferente de qualquer outro lugar e quando a gig é boa no Brasil, é difícil de se superar. Eu não sinto falta de nada do cotidiano a não ser o que você já mencionou, das relações interpessoais e familiares. E o pouco que tenho de tempo para explorar a arte quando estou por aí não me permite sentir tanto apego a esses hábitos a ponto de sentir saudades disso. Vivemos um momento muito difícil no país e é muito complicado identificar-me com qualquer coisa que anda acontecendo, principalmente no âmbito social.

Foto: Pablo Bustos
HM – Falando em lar, a Tronic é algo parecido para você artisticamente, não? Especialmente se notarmos que sua relação se estende por quase uma década. Como ela se iniciou e veio a se tornar tão longeva?
O Tronic foi minha “base” durante quase dez anos, foi o selo que me projetou para o mercado e apostou na minha música integralmente e incondicionalmente. A minha relação com o selo se iniciou quando conheci o Christian (Smith, proprietário) através da Tamy, amiga de longa data que se casou com ele. Desde o início foi como se nos conhecêssemos desde pequenos, houve uma conexão muito natural entre a gente, nosso gosto musical é muito parecido e tudo fluiu super bem, por isso durou tanto tempo. Além de me tornar um dos principais artistas do Tronic, me tornei engenheiro de estúdio do Christian e, vez ou outra, dava uns pitacos no que era lançado pelo selo. Uma escola e uma experiência incríveis, nem preciso dizer. Nos últimos dois anos deixei a engenharia de lado e acabei me distanciando um pouco do cotidiano do Tronic e, desde então, iniciei uma relação mais próxima com outro selo sueco, o Drumcode. E esta relação vem se desenvolvendo muito bem, tanto na parte de lançamentos que fiz com eles quanto nos bookings para eventos da marca, como Sónar em Barcelona, Resistance em Ibiza, Fabric em Madrid, Warehouse Project em Manchester, etc. Apesar de já ter lançado por muitos selos, acredito que o trabalho mais próximo que possa ser desenvolvido com uma plataforma só pode alcançar um potencial maior tanto para o artista quanto para o selo se for algo recíproco.
HM – E quanto a se envolver com algo parecido com a 82 novamente? Existe algum desejo (ou saco) para tocar um selo de novo?
Sempre rola um flerte com a idéia. Sozinho eu não tenho a menor pretensão de tocar um selo atualmente. Contudo, em casa somos dois, quem sabe um dia a idéia sai do papel.
HM – E, já que falamos em relacionamentos, há algo presente de forma bem constante em sua carreira como produtor: as parcerias e colaborações com outros artistas. Para muitos, essa abordagem é algo muito delicado ou mesmo impensável, mas como esse desafio se coloca para você em estúdio, mesmo ao ponto de parecer tão corriqueiro?
Realmente eu me dediquei por muitos anos à prática de produzir junto a diferentes parceiros. Sempre foi um desafio e acho que me fez crescer muito como artista enfrentá-los. Tentei vários formatos, mas cheguei à conclusão que a pareceria ao vivo é a única que realmente funciona. Se a troca de energia não rola ao vivo, a relação não faz sentido para mim. Acho que sair da zona de conforto pode ser mais difícil para uns do que para outros, mas para mim isso sempre se apresentou quase que como uma obrigação. Foram poucos os casos em que me senti totalmente livre e me entreguei durante o processo e composição, confiando e me inspirando no que vinha das outras partes. Quando isso acontece é algo tão mágico que não dá para explicar. É como falar uma língua que não esbarra na limitação das palavras. É o ápice da comunicação plena: é união. E poder ter essa oportunidade não deveria ser dispensado por ninguém.
HM – E quanto aos álbuns? Eles já fizeram mais parte da sua produtividade e desde bem cedo, não? Houve algum motivo específico para dar um tempo neles? Há algo preparado nesse sentido para o futuro próximo?
Engraçado que essa pergunta sempre vem à tona nas minhas entrevistas mais recentemente. Eu não consigo entender ainda muito bem o que significa a forma com que as pessoas consomem música eletrônica atualmente, e a dinâmica é muito maior, as mudanças são muito mais rápidas, na vida e no cotidiano, nos veículos de mídia, nos formatos de arquivo, nas plataformas de divulgação. Isso tudo me parece ter tirado o formato álbum do seu habitat natural e, antes de trabalhar em um LP de novo eu gostaria de poder estudar melhor algo que seja mais adaptável a essa e futuras mudanças, algo que tenha um significado maior do que uma simples coleção de singles. Acho que para um artista novo é super legal e importante ter um álbum, até porque a própria experiência de trabalhar em um LP já te leva a algumas etapas acima. No meu caso, depois de dois álbuns como Wehbba e meu primeiro como Oil Filter, há 14 anos, as coisas precisam de um pouco mais de consideração.
HM – E, por falar nele e também para pararmos de falar do passado, o que há de planejado ou ao menos esboçado nesse horizonte que se abre para você e seus projetos?
Como mencionei acima, venho trabalhando bastante e meio que exclusivamente com o Adam Beyer no Drumcode. Tive dois EPs lançados neste ano pelo selo e já comecei a trabalhar no próximo; também acabei de fazer um remix para uma faixa do álbum novo do Gui Boratto, que sai pela Kompakt em agosto. É uma honra em dose dupla para mim poder reinterpretar uma faixa do nosso orgulho nacional que é o Gui. Ainda mais por um dos melhores selos de música eletrônica das últimas duas décadas.
