A fórmula evolutiva do Monkey Safari – Exclusivo!

Por Chico Cornejo

Foto de abertura: divulgação

Transitar em uma via estreita e repleta de sinalizações como por vezes a música eletrônica parece oferecer com seus subgêneros e microcenas pode se tornar algo um tanto desorientador e a capacidade de se manter num rumo definido e amadurecer uma identidade. Alguns optam pelo ecletismo como cerne da sua, enquanto outros preferem uma abordagem mais rígida para consolidar um perfil musical que se destaque no intenso tráfego de artistas e tendências que já presenciamos há algum tempo. O caso específico desta dupla alemã é um bastante original, pois eles circulam bem no meio sem nunca ficarem na contramão ou serem ultrapassados, se atendo firmemente a um destino.

Mesmo não sendo fácil de ser trilhado ou até seguido, foi um caminho bem diversificado e coeso que trouxe o Monkey Safari até este momento. Agora colhendo os frutos de um recém-lançado e aclamado álbum, uma nova turnê brasileira na qual se apresentam na Ressonância, em São Paulo, e uma carreira digna da boa conversa  que tivemos,  a dupla falou um pouco do trajeto já percorrido e daquele que se desdobra adiante. 

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HM – Sempre foi um pouco desconcertante notar que levou tanto tempo para que finalmente viessem ao Brasil, mas acabaram por fazê-lo em grande estilo: no auge do carnaval e em Florianópolis. Certamente poderia ter sido muito pior, então quais foram as impressões que ficaram dessa ocasião?

Foi uma noite incrível para nós em Floripa com muita diversão e um público bem animado. Ouvimos muitas coisas boas sobre a cena festeira brasileira e certamente não nos desapontamos. Também foi a primeira vez que conhecemos Reboot em carne e osso naquele evento. Ele é alguém que acompanhamos já há algum tempo e ali foi o início de uma boa relação entre nós, além do começo de planos futuros para trabalharmos juntos.

HM – Nesse ínterim, você nos deram um álbum magnífico, “Odyssey”. Como ele tem se saído até aqui, em termos de recepção e da percepção mais ampla da sua música pelo público?

Estamos muito contentes com o progresso da obra como um todo. A resposta tem sido incrível e estamos bastante orgulhosos do fato de que artistas de porte de Carl Cox, Hernan Cattaneo, Tensnake e outros tenham apoiado o álbum, até o ponto de se dedicarem a fazer remixes de suas faixas. Ele era a próxima etapa em nossa evolução musical e toda essa reação positiva nos faz ter mais certeza de que estamos no caminho certo.

HM – Como álbum, ele consegue realizar muitos feitos que álbuns de música eletrônica – especialmente do tipo dançante – usualmente falham em entregar, especialmente prover ao ouvinte uma narrativa cativante que funcione em muitos contextos. Quão desafiador foi manter esses aspectos no decorrer do período que ele levou para ser finalizado?

Para ser sincero, esse tempo foi de exatamente quatro anos. Ele demorou porque foi produzido em várias direções simultâneas e o produto final é algo como uma mistura de todos os projetos nos quais nos envolvemos nesse período. É um processo cansativo, mas também abre sua mente para pensar fora da caixinha quando trabalha num projeto por tanto tempo.

HM – Poderíamos dizer que sua breve estadia em nossas terras influenciou de alguma forma ou, ao menos, trouxe alguma inspiração para o projeto?

É claro! A apresentação em Florianópolis se deu durante a fase de testes e detalhamentos finais do álbum e é muito importante para nós poder realizá-los tendo a resposta imediata do público. Seu modo de pensar funciona de modo diverso do europeu e pegar boas reações de uma pista com a qual não temos familiaridade é muitas vezes essencial, pois abre novos caminhos para o processo de trabalho como um todo.

HM – E quanto à música brasileira? Vocês têm alguma familiaridade com ela, seja nova ou antiga? Ela teve algum lugar em sua vida ou carreira?

Sempre curtimos muito world music, assim como a musicalidade tradicional sulamericana. O Samba definitivamente teve seu lugar em tudo isso. Mesmo porque nós, na qualidade de europeus, penamos tanto para aprender a dançar. O álbum “Brasileiro” de Sergio Mendes sem dúvida é um dos mais fabulosos de todos os tempos. Então, como se pode ver, ela tem um lugar nos nossos corações.

HM – Desde que começaram, o cenário musical mudou bastante, em nível mundial, mas especialmente na Alemanha. Quais foram as transformações que sentiram ser as mais profundas e cruciais no que fazem como músicos, DJs ou mesmo como donos de um selo e um club?

A evolução da cena de música eletrônica através de ciclos infinitos é a parte mais interessante do gênero como um todo para nós. Nunca fica entediante porque você tem novas influências chegando o tempo todo. A cena alemã é bastante forte e possui uma bela história, não apenas em Berlim, mas em Frankfurt, Munique, Colônia e muitas outras partes. A principal questão que surgiu nesses anos diz respeito aos regulamentos governamentais sobre os clubs e um processo constante de mudança no modo como as pessoas se divertem neles. Todos esses fatores tornaram mais difícil para esses estabelecimentos e festivais se organizarem e realizarem um bom trabalho e, nos últimos dois anos, muitas casas fecharam. Em cidades menores por conta de uma cena incipiente, nas maiores por conta da gentrificação. Não são tempos fáceis mas somos otimistas de que a cena como um todo vai sobreviver a eles.

HM – Agora falemos do Hommage. O selo tem conquistado um lugar respeitável entre uma variedade de seguidores através de sua meia década de existência. Vocês cuidam pessoalmente do A&R? Se esse é o caso, já chegou a ser um desafio manter sua identidade ou o foco no plano original, se é que houve algum desde o início?

Nós lidamos com todo o A&R junto ao Karl Friedrich, um amigo e um co-fundador do selo. Em geral não pensamos que haja apenas um caminho para desenvolver sua sonoridade. Para nós é realmente importante ter uma boa relação com os artistas com quem trabalhamos, então nem chega a ser desafiador, é mais uma questão de crescimento constante.

 

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Foto: divulgação
 

HM – Já que tocamos no catálogo do selo, a contribuição de ninguém menos que Carl Cox para os remixes sem dúvida é algo que se destaca, dadas todas as coisas que fazem de Carl a lenda que é. Ademais, se qualquer um notar o quão seletivo ele deve ser, se levarmos em conta o quão rarefeita sua produtividade se manteve, tudo se torna ainda mais notável. Qual a história por trás desse feito?

Durante a fase promocional tivemos algumas respostas muito positivas acerca dele. A reação do Carl foi uma honra imensa para nós, ele curtiu muito! Então estabelecemos contato direto com ele e perguntamos se ele estava aberto à possibilidade de fazer um remix. A resposta imediata foi OH YES, OH YES! (brincadeira). Ele não levou muito tempo em dizer que topava e agora temos muito orgulho em poder dizer que Carl Cox, a lenda, fez um remix para uma das faixas de nosso álbum.

HM – E quanto a seus próprios critérios quanto a um projeto de remix? É evidente que curtem fazê-los se olharmos para os mesmos parâmetros usados na última questão. Então, qual o segredo para se manterem tão produtivos e, ao mesmo tempo, cuidarem de seus própŕios assuntos (produções, carreira, compromissos, agenda)?

A decisão que envolve qualquer projeto normalmente vem logo após a primeira ouvida. Se uma faixa nos toca, pensamos no que poderíamos fazer com ela. É legal quando você tem a oportunidade de criar algo novo de algo preexistente e realmente gostamos do modo de trabalho distinto daquele envolvido em criar algo do zero. Para nós dois, as coisas rolam de modos distintos no cotidiano, mas outras, como os sets e o selo, nos aproximam em seu funcionamento. É muito bom trabalhar sob diferentes circunstâncias, pois mantém tudo interessante.

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