Após 8 anos sem vir ao Brasil, Danny Howells chega a Curitiba e bate um papo exclusivo com a HM

Por Jonas Fachi

Foto de abertura: divulgação

Mais de 10 anos depois de tocar na festa de lançamento da House Mag (01/12/2007) no Warung Beach Club, Danny Howells formalizou a conexão com esta revista através de uma entrevista exclusiva, a primeira para um veículo de comunicação no Brasil, onde relembrou o início de sua carreira, a volta aos estúdios, além de seu novo momento artístico com menos shows e mais tempo para se dedicar a outras causas, como o combate ao abandono e violência animal e a cultura vegana.

Danny Howells pode ser chamado de um dos mestres da cultura do House Progressivo desenvolvido no Reino Unido nos anos 90. O artista ganhou notoriedade global tanto pela sua qualidade distinta no comando de uma pista de dança – sempre atuando com capacidade excepcional na transição das faixas – como pela produção em estúdio de diversas músicas que se tornaram hinos do estilo que ajudou a popularizar. Impossível não lembrar de ‘’On The Moon’’ pelas suas mãos no amanhecer do templo em agosto de 2010 – sua última aparição por aqui – como também das louváveis compilações GU #027 gravada em Miami e 24:7, ambas pela Global Underground. Danny tem seu nome marcado no Brasil por ter sido o hedliner do aniversário de um e três anos do Warung, em 2003 e 2005 respectivamente, período auge de sua carreira, onde figurou constantemente entre os 20 DJ’s mais populares da revista DJ MAG entre o final dos anos 90 e os primeiros anos do século XXI. Quando é pedido para definir seu estilo, o inglês diz acreditar nas seguintes características: “profundidade, apontar o futuro, alma sexy e toques de Techno, Funky e House’’. Confira abaixo a entrevista concedida ao nosso colunista Jonas Fachi na íntegra.

HM – Vamos voltar ao início dos anos 90. Hastings, Inglaterra. Você é da mesma cidade que o John Digweed certo? Inclusive, existe uma história de que o John ouviu um mixtape seu em 1991, e lhe convidou para abrir as noites da Bedrock. Conte-nos mais sobre esse começo de sua carreira.

O início da minha carreira foi, na verdade, através do Prince (Paul), quando eu e um amigo chamado Andy fizemos uma festa para comemorar seu aniversário. Nós alugamos um lugar e alguns decks e passamos a noite tocando as músicas de Prince e outros artistas como The Time, Sheila e etc. Nós fizemos algumas festas parecidas depois, tocando músicas como “De La Soul”, “Jungle Brothers”, “80s groove” e etc, enquanto ao mesmo tempo eu estava entrando no mundo da rave, fazendo mixtapes por diversão. Meus amigos me incentivaram a fazer um teste em um club local chamado The Crypt, o qual terminou comigo sendo residente da casa. Logo depois disso, outro amigo deu ao John uma de minhas mixtapes, o que resultou em um set de abertura na noite da Bedrock no Hastings Pier. Eu tive muita sorte de ter amigos que acreditavam que eu tinha algum talento, caso contrário eu jamais teria coragem para tentar e me promover.

HM – Como você tem observado o desenvolvimento do cenário eletrônico do Reino Unido? Muitos clubs fecharam, outros como a Fabric e a Ministry Of Sound se mantêm vivos. Como explicar a explosão da música eletrônica no mundo na última década e ao mesmo tempo ver grandes centros terem cada vez menos clubs?

Para ser honesto, não estou de olho no que realmente está acontecendo. Estou ciente de que infelizmente perdemos um monte de clubs incríveis ao longo dos anos, mas se você me perguntasse quais clubs se destacam em Londres agora, eu não teria a menor ideia! Eu sou assim também com gravadoras, produtores, etc. Eu apenas faço minhas coisas, toco a música que eu gosto, toco nos clubs que eu gosto (e onde eles gostam de mim!) e vivo na minha própria bolha.

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Foto: divulgação

HM – Durante sua extensa carreira, além de DJ, você se destacou como produtor musical. Eu poderia citar diversas músicas que se tornaram hinos, tais como ‘’On the Moon’’ e ‘’Right Off’’. Você também lançou uma gravadora, a Dig Deeper, com o último lançamento datado em 2013. Recentemente você lançou uma linda faixa chamada “Earthlings X’’, após um longo período de hiato. Podemos esperar mais lançamentos regularmente? Como está sua relação com o estúdio?

Eu tenho ficado muito ocupado recentemente. O EP “Whiterock” saiu alguns meses atrás, na gravadora 8bit, e eu fiquei muito feliz com ele. Há um monte de faixas minhas que estiveram em meus sets ao longo do ano passado, muitas das quais virão a ser lançadas em breve. Eu produzo quando tenho inspiração, e se não estou sentindo, eu me retiro. Agora, estou realmente sentindo isso.

‘”Não quero passar a vida morando fora com uma mala’


HM – Neste período percebi que você diminuiu bastante a carga de shows ao redor do mundo. Depois de quase três décadas de carreira, como ainda se manter motivado para viajar? Pretende continuar neste ritmo?

A carga que eu trabalho agora é perfeita para mim. Não quero passar a vida morando fora com uma mala, e tem muitas coisas importantes fora da música acontecendo para mim em Londres. Felizmente eu não sou tão popular como DJ como costumava ser, então tudo funciona muito bem! Se eu fizer turnês demais, isso se tornará repetitivo e eu ficarei sem inspiração. Do jeito que minha vida é agora, nunca fico entediado e estou curtindo meus DJ set’s mais do que nunca.

HM – Você tem uma parceria com Dave Seaman e o Darren Emerson, que assim como você são grandes expoentes do House Progressive desenvolvido no Reino Unido dos anos 90. Fale mais sobre o projeto 3D, como surgiu a ideia?

Tudo começou quando tocamos juntos na Ministry Of Sound [club de Londres] no ano passado. Todos nós tocamos lá durante anos, somos velhos amigos e extremamente próximos. Decidimos tentar mais alguns shows juntos, mas não imaginamos que seria algo tão frequente. Nós realmente não pensamos sobre um nome propício ou qualquer outra coisa! Apenas começou como um pouco de diversão e acabou assumindo vida própria. Estamos todos realmente gostando desta maneira diferente de trabalhar, já que todos nós tivemos tantos anos viajando e tocando por conta própria. Nos deu algo divertido e desafiador para nos entreter. Além disso, me levou de volta ao estúdio depois de um longo intervalo, então estou feliz com isso!

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Foto: divulgação

HM – Acompanho bastante seu ativismo em prol do veganismo. Uma cultura que tem ganhado cada vez mais força em todo mundo. O que você poderia dizer para alguém que deseja parar de comer carne?

Se alguém quiser parar de comer animais, então a primeira coisa que vou dizer é: apenas o faça! Eu tenho um grande arrependimento na minha vida que é o de eu não ter me tornado vegano mais cedo. Agora, é algo que está crescendo o tempo todo, já que as pessoas estão vendo o sofrimento horrível que os animais têm que suportar durante suas curtas existências, percebendo as consequências ambientais e de saúde ao apoiar os produtos de origens animais. Não há melhor momento para fazer isso, e o apoio está literalmente em toda parte.

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Foto: divulgação

HM – Acompanhei e até escrevi uma matéria aqui no Brasil sobre o leilão que você fez de uma case repleta de discos raros e músicas exclusivas no ano passado para ajudar uma instituição que cuida de cães e gatos. Como foi o resultado desta ação?

Ah, obrigado! Sim, isso foi uma ajuda ao resgate de animais da New Hope. Eles resgatam e cuidam de muitos animais, como porcos, galinhas, cavalos, pombos, coelhos, todos os tipos! Eles estavam no meio de uma expansão, pois não tinham espaço para novos resgates, então acabei leiloando algumas coisas em prol deles. A case com os discos se saiu muito bem! Eu acho que foi por volta de 400 libras ou algo assim. Eu conheci o rapaz que comprou, ele foi incrível e ficou muito feliz por estar ajudando esta causa.

“Sempre haverá alguns que não vão se importar, mas acredito que a maioria das pessoas no mundo são boas”

HM – Você acredita que um dia todos no mundo irão aderir a um estilo de vida mais saudável e menos agressivo as limitações do planeta e todos os seres que o habitam?

Sim, esse é o meu sonho. Sempre haverá alguns que não vão se importar, mas acredito que a maioria das pessoas no mundo são boas. Quando se trata de comer animais, temos sido verdadeiramente doutrinados para acreditar que isso é “necessário” e “natural”, e de alguma forma estamos fazendo isso de uma maneira “humana”. Mas a realidade é tão diferente. Não há uma maneira humana de matar um animal para consumo próprio. Estamos em um momento crucial, em grande parte graças as mídias sociais, onde as pessoas estão finalmente questionando o que todos nós aprendemos desde o nascimento sobre produtos animais e seu impacto em nossa saúde e no planeta, e grandes mudanças estão acontecendo como resultado.

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Foto: divulgação

HM – Faz muitos anos que você não vem ao Brasil. Seu último show foi no Warung, em 2010. Eu estava lá, lembro de você fazendo sinal para o público que precisava parar, pois precisava pegar um voo. Ainda lembra disso? Qual a expectativa para voltar ao nosso país na festa Radiola, em Curitiba, no mês de agosto?

Haha, isso já aconteceu muitas vezes! Eu odeio quando uma festa ainda está em pleno andamento e eu tenho que sair para ir ao aeroporto, mas infelizmente isso acontece às vezes, especialmente quando há apenas um voo direto para o meu próximo destino. Eu mal posso esperar para voltar! Se passaram muitos anos e eu sinto que temos que recuperar o tempo perdido.

Bora conferir ao vivo um super set do Danny Howells? Confira o evento no Facebook da festa Radiola, dia 5 de agosto, em Curitiba.

 

 

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