Por Alan Medeiros
Foto de abertura: divulgação
Poucos DJs do Brasil possuem um perfil tão qualificado na discotecagem quanto Davis. O paulistano tem aprimorado e intensificado sua pesquisa musical desde os tempos de sua residência no Warung, passando por toda jornada junto a ODD, até chegar no atual momento, o mais internacional de sua carreira. O segredo para esse crescimento? Trabalho.
Embora Davis Genuino seja considerado um player muito importante da cena eletrônica brasileira, o destaque central de suas ações está frente os decks e no estúdio. É difícil classificar o seu perfil sonoro e isso tem se mostrado muito positivo ao longo dos últimos anos, já que a versatilidade, não confunda com falta de identidade, parece ser uma das marcas registradas de Davis, sempre preocupado em entregar uma experiência sonora interessante para quem está na pista.
HM – Olá, Davis! Tudo bem? Obrigado por falar conosco. De uma forma geral, percebo que parte dos artistas mais interessantes da dance music estão deixando de lado um perfil mais agressivo e intenso na discotecagem para algo mais profundo e emocional. Você tem acompanhado esse movimento também? É possível dizer que a dance music passa por um momento único ou isso já aconteceu de forma semelhante em outros momentos?
Acredito que muitos artistas já apresentavam um perfil mais profundo e emocional e não eram tão notados como acontece nos dias de hoje. Com o aumento da velocidade na troca de informações não só os artistas, mas também estilos musicais, passaram receber maior destaque. O público passou a ter mais acesso a estes perfis, não só profundo e emocional, como também os DJs seletores, por exemplo.
Não posso afirmar se na dance music aconteceu um movimento como o atual, o que gosto de acompanhar é o quanto ela se desenvolveu, se popularizou e afirmar que ainda há muito espaço para a evolução, especialmente no Brasil.
A ODD tem sido palco para esse movimento, como as apresentações de Octo Octa, Trava Línguas (Linn da Quebrada & Badsista) e Honey Dijon, nas primeiras edições de 2018. Mas não é só na música, a ODD também abriu espaço para novas formas de artes, que completam esse lado mais emocional e profundo, proporcionando uma experiência diferente para a pista. O espaço tem se tornado cada vez mais representativo e o público se sente livre e seguro para descobrir e expressar as mais diversas emoções. A construção desse espaço sempre foi o objetivo da ODD e também é uma realização pessoal.
HM – Seus lançamentos pela Innervisions e Live at Robert Johnson catapultaram seu nome a nível internacional. O que você tem planejado para sua carreira fora do país? Há outros lançamentos de relevância semelhante a caminho?
Estou feliz com a forma que a minha carreira vem se desenvolvendo fora do país. Acabei de chegar de uma turnê de sete semanas, passando por Medelín, Bogotá, Nova Iorque, Milão, Munique, Paris, Berlin e Amsterdã. Ainda tenho outras duas programadas, uma na América do Sul e outra na Europa.
Sobre a produção musical, de fato, tenho conseguido construir uma identidade artística que reflete o meu ambiente. Isso tem muito a ver com o tempo que tenho dedicado à pesquisa de sonoridades e à produção musical, aliado ao momento que vivo e à força da comunidade artística especial que temos formado no In Their Feelings.
Quanto aos novos lançamentos, posso falar de alguns para este segundo semestre de 2018, sendo um EP para Cin Cin Records (do Fort Romeau) com duas faixas minhas e duas faixas do Pional, com lançamento previsto para outubro. Uma faixa para Permanent Vacation prevista para o final do ano, um EP novo para Live at Robert Johnson e uma fita cassete para In Their Feelings.
Este ano pretendo lançar um EP, com faixas novas, e uma fita cassete, mas na verdade ainda não planejei muito, espero que seja algo muito espontâneo, um recorte de material novo não lançado e, talvez, novas interpretações de faixas lançadas pelo selo.
Mas antes da minha fita cassete vamos publicar uma fita cassete do Zopelar, contendo mais uma expressão artística que confirma sua versatilidade, uma sonoridade que acredito que poucas pessoas tiverem a oportunidade de experimentar. E na sequência temos um EP do Vermelho Wonder (Vermelho feat. Ivana Wonder) com faixas intensas, cheias de emoções, que representam muito o perfil dos artistas.
Este ano está sendo interessante e desafiador para o ITF. Temos conversado muito sobre a direção artística, mas temos conversado ainda mais sobre a dinâmica envolvida no lançamento de um disco, especialmente, o intervalo de tempo entre a produção da faixa até o seu lançamento, o quanto isso pode ser encurtado, o quanto podemos ser mais independentes na sua distribuição. E, como forma de tentar encurtar essa cadeia, estamos adicionando o Bandcamp como plataforma, venderemos os discos, os downloads, merchandising e, ainda, iremos explorar outros formatos, como por exemplo a fita cassete.
HM – Inegavelmente você é um dos artistas brasileiros de maior relevância no cenário internacional. Como sua jornada lá fora começou? O que você considera essencial para manter esse bom momento?
Essa jornada começou há muito tempo. Minhas primeiras gigs na Europa aconteceram em 2006, durante a Copa do Mundo na Alemanha. Como o tempo voa! Naquela época eu organizava minhas festas em São Paulo e começava a fazer algumas festas em Florianópolis.
Um DJ alemão, residente do Tresor, me viu tocando e me convidou para tocar com ele em Berlim em alguns clubes. Durante aquele curto período de tempo na cidade ele me apresentou para muita gente, artistas os quais mantenho amizade e uma relação de muito respeito e admiração. Gosto muito de olhar para este passado para me lembrar de onde eu vim, e lembrar também que algumas conquistas demandam, além de dedicação, tempo (paciência).
Bem, sobre o que eu considero essencial para o momento: pesquisa musical, produção musical, originalidade, me manter atualizado e sempre buscar superar meus limites físicos e emocionais que a rotina de artista me impõe e dedicar muita energia para ter apresentações onde eu possa tocar as pessoas de uma forma memorável.
HM – A presença de grandes marcas do cenário internacional da música eletrônica no Brasil tem sido cada vez mais comum. Será que em breve também veremos nossas marcas assinando festas e showcases lá fora?
Acredito que muito em breve veremos festas ou selos brasileiros assinando eventos no mercado internacional.
HM – Um dos maiores desafios de um DJ e produtor é ter o mesmo perfil sonoro na discotecagem e produção musical. Olhando para os seus atuais projetos, como você enxerga esse ponto?
Sempre me interesso sobre o perfil sonoro dos meus amigos. Conversamos muito sobre isso, de uma forma muito natural, desde como foi uma apresentação, falamos sobre a seleção musical de um set ou live, até chegar nas referências que compõe o universo musical daquele artista. Com isso em mente eu visualizo um caminho a trilhar. Hoje sinto que meu trabalho como DJ está bem conectado a minha produção musical e isto me deixa satisfeito, seguro em seguir, hoje, por este caminho.
HM – A história da Innervisions aqui no Brasil tem alguns capítulos muito interessantes ao seu lado. De que forma Dixon e crew contribuíram para sua evolução enquanto artista nos últimos anos? Conheci o Dixon no Sónar em Barcelona, em 2007. Durante suas passagens pelo Brasil tocamos juntos por inúmeras vezes e nossa amizade foi se estreitando com o passar dos anos. Tivemos a festa da Innervisions em São Paulo e duas vezes Lost in a Moment no Rio, sendo uma delas na véspera da final da Copa de 2014 – quando foram campeões e teve o famoso 7×1!
Tudo isso já estava sendo incrível vivenciar, mas, com o lançamento da faixa “Blind” pela Innervisions, houve um impacto muito grande na minha carreira. O selo, desejado pelo público e pelos artistas, ainda parecia muito distante para mim, mas o Marcus Worgull me encorajou a mandar a faixa para o Dixon e daí começou a saga.
No início de 2016, o Steffen me escreveu dizendo que a IV iria lançar minha faixa, pediu para eu conter a ansiedade, e não revelar o track ID. No final da mensagem ainda disse que ele e o Kristian tinham incluído a “Blind” no Essential Mix Ame x Dixon que iria ao ar naquela semana.
Aquela notícia foi excelente, mas ao mesmo tempo foi péssima, pois eu queria comemorar, dividir a conquista com as pessoas, mas não dava. De abril, quando veio ao ar o Essential Mix, a setembro, quando o disco finalmente foi lançado, eu tive contato com uma audiência nunca imaginada. Foram meses recebendo mensagens dos fãs e produtores perguntando se a faixa era minha. Foi muito gratificante e com certeza me colocou em destaque no cenário internacional.
HM – Para finalizar, algo mais pessoal: quais artistas e movimentos musicais tem dominado suas pesquisas recentemente?
Bem, neste exato momento, enquanto respondo a entrevista estou navegando pelo Bandcamp, meu lugar favorito para pesquisar música atualmente. Tenho dedicado meu tempo à pesquisa de Drone Music, Ambient, Cosmic e sonoridades mais carregadas e desconstruídas. Ah, tenho também revirado as primeiras levas de discos que comprei, por volta de 2000-2004. E para dar uma descarregada eu deixo o Spotify rolando na hora de cozinhar.
