Por Jon Fachi
Fotos: Ebraim Martini, Music and Festival Photographer
A consolidação no cenário mundial como talvez um dos dez clubs mais importantes da história da dance music é uma realidade para o Warung Beach Club há muito tempo. Entretanto, se manter em alto nível realizando eventos quinzenalmente ao longo do ano e obter sucesso de público em cada um deles é um desafio constante. Considerando ainda que o ponto de força motriz atrativo é direcionado ao turismo de verão, quando se inicia a temporada de inverno sulista, com temperaturas que podem chegar a zero grau, imagina-se que um club que tem suas bases quase assentadas na areia da praia deveria ter sua carga de eventos diminuída por falta de interessados. Definitivamente, este não é o caso do Warung. Se um dia acreditamos que o litoral norte catarinense se tornaria algo semelhante a ilha branca de Ibiza, esse sonho já foi descartado há alguns anos. A verdade é que o templo tomou as rédeas da cena regional para liderar uma construção de identidade própria de seu público de maneira inimitável. Se no verão todos querem conhecer a “mágica do templo’’, no inverno o club apresenta sua outra face enquanto entidade atmosférica; caracterizada por noites mais sombrias e de energia cadenciada. Esse clima se conecta muito bem com o Techno.

No dia 16 de junho, o club recebeu outra vez mais duas pistas cheias para prestigiar artistas de grande apelo sonoro, trazendo para o Inside a predominância de um estilo que ganhou força na última década, desde quando o set esquizofrênico de Richie Hawtin, em setembro de 2008, fez todos os presentes rivalizarem seus conceitos pré-estabelecidos sobre música e espalhar a nova era para todos. Os conceitos rivalizados eram com a era de ouro do House Progressivo, onde a ascensão dos DJs da escola de Berlim ou de Detroit, passaram a compor quase 50% do calendário na casa.
Anos de artistas do mais alto nível se apresentando na região, também foi fundamental para a formação de um público bem informado, oficializando assim o surgimento de ótimos DJs e produtores. Um desses foi escalado para abrir a noite. Desde 2015, Wilian Kraupp vem sendo posicionado pela curadoria para levar a pista até o artista principal ou abrir a noite recebendo o público.

Wilian Kraup
O segundo horário é onde ele se sente mais a vontade e onde tem sua música alinhada, porém, todas as vezes que foi desafiado para o warm up, apresentou uma pesquisa musical invejável, nesta não foi diferente. Arrancando elogios de caras que vão desde Marco Carola e Barem até Marcel Dettmann, ele agora tinha a missão de deixar a pista no ponto para Victor Ruiz. Seu set foi imaginado para se se aproximar o máximo possível do artista seguinte, por isso, já as 23h, tratou de subir o ritmo em bpm crescente. Victor é um tipo de DJ que dispensa introduções quando assume, já iniciando o set com a régua lá em cima. Para o artista anterior, isso é ótimo, dando abertura para tocar algo mais pesado, mesmo em horário de baixa energia. Kraupp buscou referências sonoras em artistas como John Digweed, Tiefschwarz, Alex Niggemann, Catz `N Dogz e HOSH. O grande destaque de seu set, levantando o público e tirando aplausos do artista seguinte, foi em “Merkaba’’, de Hybrasil.

Wilian Kraupp
Victor Ruiz assumiu às 1 da manhã, com a pista a ponto de explodir, para ele, que dispensa construção de set de maneira progressiva, foi ótimo. Sua mensagem como DJ é muito objetiva: vamos direto ao ponto. Para ser sincero, esse estilo de DJ set mais linear e com pouca construção da energia ao longo do tempo não me agrada, entretanto, cada música escolhida era de extremo bom gosto. Seguindo o mesmo modelo do início ao fim, tocou faixas próprias, remixes e tudo que tem de mais novo no mundo voltado ao que se convém chamar de “techno com pitadas viajantes e melódicas’’.

Victor Ruiz
Em seguida, desci para o Garden para finalmente ver pela primeira vez D-nox. Por mais estranho que pareça, um dos djs internacionais que mais se apresentam no club e no Brasil, em todas as vezes que ele estava no line up, ou acabei não indo no evento ou optei por ver o artista da outra pista. Não por ter algum tipo de preconceito contra ele, ao contrário, tenho um grande respeito por sua história, principalmente suas produções antológicas em parceria com Beckers, formando um dos projetos expoentes do House Progressivo.

D-nox
Entretanto, essa sua linha formadora se aplica apenas em pistas específicas, como nas da Argentina. Infelizmente, o público que o segue no Brasil, espera dele outro tipo de música e era o que ele estava entregando. Tech House, muito dançante, energético, com viradas explosivas, em um estilo mais raso e simplório de se ouvir, mas que funciona. Mesmo não tendo muita afinidade com essa outra linha dele, mais popular e acessível, fiquei ouvindo por um bom tempo, afinal, sua técnica como DJ é brilhante, e sempre se pode aprender algo novo com DJs dos anos 90.

Leozinho e D-nox
Na sequência do Garden, o DJ residente mais antigo da casa e um dos mentores do conceito balinês adotado pelo club, Leozinho, foi por muitos anos uma das minhas maiores referências, tanto musical quanto técnica. Talvez os frequentadores que chegaram ao club nos últimos cinco anos não tenham a verdadeira dimensão do quão importante ele é e foi para o club e também para a cena brasileira. O cara que colocava os “gringos no bolso’’, sempre tocando acompanhado pelo percussionista Rodrigo Paciornik nas “finaleiras” do main stage do templo, me fez aprender muito sobre a importância de saber como construir um set, como mixar harmonicamente de forma perfeita no vinil e claro, como fazer todos levantarem as mãos por seguidas vezes dentro uma noite.

Leozinho
Lembrando disso, resolvi ficar para ver um pouco do seu set, afinal, nos últimos anos ele tem sempre se colocado como um DJ de warm up, algo que não condiz com sua capacidade, mas que é compreensível diante da evolução do club. Então, ter a chance de vê-lo novamente em horário nobre no templo é sempre uma oportunidade de ouvir House Progressivo da mais pura classe, pelas mãos de um DJ que tecnicamente de fato deixa grandes nomes da cena global comendo poeira. Seu set foi nessa linha, a sua formadora. Muito groove, ritmo nas baterias, momentos de introspecção e como diria Luiz Eurico, “Leo peca pelo extremo bom gosto’’. Com uma enorme vontade de ficar assistindo seu set, pois sabia que ao amanhecer ele iria abrir a case dos clássicos, resolvi subir para ver o headliner da noite, que já havia me impressionado muito no ano passado.

Chris Liebing
Chris Liebing, a atração máxima desta data, é um legitimo representante da força que a cena Techno alcançou em um campo que envolve o entorno do templo e também do país. Mesmo sendo uma das últimas lendas do estilo a vir para o club, estreando em novembro de 2017, sua qualidade como DJ se transformou em um enorme apelo de nossa cena por seu nome. Pegar uma pista com alta carga energética, mas que já clamava por algo novo, não poderia ser melhor para um cara do nível dele. Comandando o Model 1, mixer desenvolvido por Richie Hawtin e que é adotado por quase todos os grandes DJs de Techno no mundo, o alemão parecia jogar em casa.

Chris Liebing
Seu carisma era somado a um Techno mais tradicional, bem pesado, reto, duro, mas que de forma impressionante conseguia misturar elementos quentes com uma certa constância rítmica e momentos de quebra muito bem pensados. O resto da noite foi para todos na pista mergulharem em seu mundo sonoro dançante. É um tipo de sonoridade, que aparentemente soa repetitivo, porém, quando você analisa de forma criteriosa, consegue perceber variações das camadas de cima, que fazem a pista não se cansar.
Perto do amanhecer, e com o dia demorando mais que o comum para chegar, a sensação de club noturno ainda pressionava a pista para interagir. Próximo das 7h, eu percebia a surpresa de quem olhava para trás e descobria que do lado de fora já estava claro. A pista se mantinha escura, e quando ela está assim, é impossível de se pedir para parar. A faixa “Planeta”, de Artbat, foi uma das poucas que consegui descobrir dentro do set de 3h30 de Chris. Particularmente, nunca fui de acompanhar os lançamentos do real Techno no dia a dia, nem de ouvir esses artistas fora do ambiente clubber.

Chris Liebing
Para meus ouvidos, é uma sonoridade que precisa do ambiente, da vibração das pessoas, do envolvimento do artista com os expectadores, para enfim fazer um sentido verdadeiro, que fuja da teoria da mecanização purista e sem sentimento. Chris tem esse poder, e não é à toa que pertence a um seleto grupo de artistas que carregam uma legião de fãs por todos os cantos do planeta.
