Por Chico Cornejo
Foto de abertura: divulgação
John Ciafone e Lem Springsteen possuem um status único e quase inatingível no panteão da House, o mesmo que abriga as lendas que não apenas eles mesmos veneram mas com as quais trabalharam, curtiram e ajudaram a moldar a sonoridade canônica do gênero durante todos os anos 90. Tanto é, que é seguro dizer que, caso não tivessem decidido parar com as atividades no final do século devido a um misto infeliz de exaustão e senso de comprometimento exacerbado num dos mais cruéis âmbitos profissionais conhecidos pela humanidade: o musical.
Após esse hiato no qual muito do que entendemos, consumimos e apreciamos musicalmente mudou e o mundo que ajudaram a criar tenha sido profundamente dinamizado através das mudanças tecnológicas e mercadológicas pelas quais passamos nos últimos anos, eles retornam às atividades como se não tivessem parado. E, considerando que esta é uma dupla cuja contribuição para o gênero foi tão crucial quanto a de celebradas instituições como a dupla Masters At Work, por exemplo, o fato de terem retornado é cercado de expectativas e muita alegria.
O que torna tudo isso ainda mais excitante é o fato de que virão para o Brasil pela primeiríssima vez para a próxima Gop Tun, que acontece neste sábado, trazendo com eles uma oportunidade única de congregar diversas gerações de amantes e dançarinos da mais pura House Music em torno da seleção de dois de seus ícones. Nesta entrevista, Lem Springsteen, metade da consagrada dupla, abre para um papo descontraído e repleto de descobertas sobre sua trajetória passada e perspectivas futuras. O resto ele conta na pista.
Como se deu sua inserção na cena e/ou na musicalidade da House? É sabido que você vem do R&B, mas como foi apresentado ao gênero fora de um ambiente profissional (de estúdio)?
Minha inserção na House Music, fora do âmbito profissional de estúdio se deu durante a universidade, quando fui levado a clubs em NY por amigos no final dos anos 80. Embora eu já conhecesse a musicalidade através de mixtapes e de adquirir vinis desde muito cedo, eu sabia de onde tudo aquilo vinha. Quanto a meu background no R&B, creio que seja um equívoco que acho que devo esclarecer. Cresci em um lar em que todo tipo de música negra era tocada. Minha mãe ouvia Gospel, meu pai Jazz ou Soul, meu irmão Hip Hop e tinha eu ali escutando R&B, Rock clássico ou Disco. Antes do Mood II Swing, eu experimentei ser representado por um produtor musical veterano, que já havia feito sucessos de House e Disco. Ele me ensinou a cantar ao vivo, assim como compor e produzir música em geral.
Eu nunca tive uma carreira no R&B, apenas cresci escutando. Gravei um single Dance com influências de R&B aos 17 anos para a Chrysalis e me apresentei no circuito de NY com ele. Meu falecido pai tinha relações com o Lionel Ritchie e os Commodores, e minha primeira gig foi quando eles abriram para o Earth Wind & Fire. Talvez isso possa ser considerado um passado no R&B. O som do Mood II Swing sequer tinha sido dsenvolvido até conhecermos Louive Vega e Kenny Dope do Masters At Work, que influenciaram nosso som, nos estúdios Basshit em NY.
Hoje em dia você sai mesmo quando não vai tocar ou até mesmo tentou manter algum tipo de contato com as pistas durante o hiato em sua carreira? Quais foram as principais mudanças que você percebeu nesse tempo?
Eu não saio a não ser que tenha que tocar. Isso se deve parcialmente ao tempo, às responsabilidades e pelo fato de não morar perto de uma cena vibrante. Eu mantive contato com outras pistas durante a época em que nos afastamos do cenário, mas infelizmente não me mantive ligado ou atualizado.
Um dos aspectos mais distintivos de seu trabalho através dos anos tem sido a habilidade de harmonizar peças vocais poderosas entre grooves pesados sem comprometer nenhum dos dois em seus respectivos encantos. Qual é a preocupação central que norteia sua abordagem a estes elementos a fim de que trabalhem tão bem juntos?
Creio que, no passado, éramos apaixonados por conseguir expressar esses vocais de qualidade sobre um groove sólido. A preocupação central era capturar tanto a essência, o soul, desses vocais no andamento da House para aqueles que apreciam esse elemento, quanto uma levada gostosa para quem gosta de faixas dançantes e combinar os dois. As produções mudaram no decorrer dos anos, assim as coisas são um tanto mais desafiadoras hoje em dia do que já foram.
E no que tange a processos, tanto no que se refere a seus trabalhos autorais quanto aos remixes, eles têm sido os mesmos até aqui?
Trabalhos de remixagem sempre foram comissionados, o A&R tinha a opinião final sobre o que entregávamos. Quanto a esse tipo de trabalho, que prefiro não realizar mais, o processo sempre foi o de procurar fazer algo especial ou fazer a música funcionar num andamento dançante. Para faixas mais Rock, seguíamos uma direção mais alternativa. Para faixas mais Pop/R&B, íamos numa pegada mais clássica. Para nosso material original, o processo sempre era diferente. Dubs e instrumentais sob a alcunha Mood II Swing sempre foram produzidos pelo John Ciafone para os fãs e DJs mais aficionados que curtem algo mais pesado. Se a produção original precisasse de um vocal ou alguns teclados mais elaborados, então eu entrava no meio e co-escrevia esse material. Também havia outras pessoas com quem colaborávamos, vez ou outra.
Seu currículo se espraia por um vasto espectro de selos em ambos os lados do Atlântico, um feito que pede tanto uma sonoridade autêntica quanto uma generosa parcela de versatilidade. Qual foi o método prevalente de trabalho para essas plataformas? Parece haver uma constante na modulação de sua produção através de tão diversos bastiões da House (Strictly Rhythm, Positiva, Nervous, Cutting) mantendo sua assinatura presente de diversas maneiras. Isto se deu principalmente através de pedidos, como serviços comissionados, ou majoritariamente através de uma postura proativa de sua parte, como projetos feitos sob medida?
Lá nos anos 90, o Mood II Swing era acompanhado por um empresário muito proativo que era responsável por uma enorme percentagem do nosso trabalho. Era por isso que havia consistência e versatilidade àquela época. Ele trazia trabalhos comissionados que nos permitiam sermos criativos juntos ou sozinhos. Trabalhamos com muitos selos grandes e independentes, tanto na Europa como nos EUA. Também, naqueles tempos, fazíamos um pouco de ghost production (pagando nossos tributos) em faixas para veteranos como David Morales, Masters At Work, Danny Tenaglia, Satoshi Tomiie e outros. Nunca fomos contratados como artistas para selos como Strictly Rhythm, Positiva, Nervous ou Cutting. Ou uma produção era feita ou licenciada para eles ou éramos contratados para algum serviço de remix. Não tenho certeza do por quê tanta gente pensa que fizemos parte do quadro de artistas deles.
Agora com referência à performance: vocês tocam como DJs e músicos ao vivo. Como vocês lidam com cada forma de arte e como elas se complementam no interior de seu trabalho?
Tocamos como uma dupla de DJs ou solo. Fizemos algumas tentativas de tocar ao vivo, mas sinto que nossos pontos fortes residem mais no estúdio que na performance ao vivo. Quando tocamos, conseguimos levar nossos ouvintes numa jornada mais enriquecedora através da House. Também conseguimos assim testar material novo em vários contextos globais, o que é inestimável. Tocar sozinho é um pouco mais estressante, já que toda a pressão recai no indivíduo.
Você se considera influenciado de alguma maneira pela música brasileira, seja pessoal ou profissionalmente? Tem algumas favoritas que queira dividir conosco?
Pessoalmente, amo música brasileira!!! Sou muito chegado na Bebel Gilberto e seus projetos com o Bah Samba, cujo produtor/compositor eu conheço bem. Também gosto muito das coisas lançadas por Louie e Ana Vega numa pegada mais brasileiro-afro-cubana de vocais e instrumentais. Não conheço muitos produtores brasileiros da atualidade, mas estou estudando aqui.
E, claro, a questão que todos queremos saber: quais são as suas expectativas com relação a tocar no Brasil pela primeira vez?
Minhas expectativas são simplesmente ver esse belo Brasil e conhecer São Paulo, espero que a festa tenha um público bem diverso e uma atmosfera gostosa.
Quanto ao futuro, o que se abre adiante para um projeto que já deixou tamanho legado e, mesmo assim, parece ainda estar longe de ter chegado ao limite de sua contribuição?
Enfim, no que se refere a projetos futuros, temos trabalhado em música nova. Claro que, vinte anos depois, estamos em diferentes estágios da vida, com um gosto mais amadurecido e, portanto, nossa produção nunca será a mesma. Não dividimos mais um espaço de estúdio ou vivemos na mesma cidade. Mesmo assim, temos começado a fazer música e o resultado vai sair quando sentirmos que esteja pronto para que possamos contribuir ao mercado atual. Ainda que, tendo a tecnologia na ponta dos dedos, não acho que precisemos nos apressar. Qualidade ainda supera a quantidade.
No mais, esperamos ter um EP lançado antes de 2019!
